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segunda-feira, maio 25, 2009

TEMPLO É DINHEIRO

A Igreja Católica está realmente preocupada com a debandada de fiéis para as igrejas evagélicas, tanto que já começou a copiar as práticas de marketing para atrair público e, obviamente, dinheiro. Este foi um flagrante registrado por mim na Igreja de São José, uma das mais tradicionais da cidade de Belo Horizonte.

Peço desculpas aos leitores do blog pela falta de atualização, mas diferente de uns e outros que vivem de tocar tambor eu tenho um trabalho que não é relacionado à religião. Como as coisas apertaram por aqui, estou com pouco tempo para escrever, mas creio que até meados desta semana estarei postando diariamente.

sábado, abril 25, 2009

FERNANDO LUGO: O BISPO NAMORADOR

Há alguns dias que o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, é figurinha fácil no noticiário internacional. O ex-bispo católico, que vem sendo chamado de "O Pai do Paraguai" ganhou projeção por conta de três reivindicações de paternidade feitas por mulheres que no passado tiveram um romance com ele, à épcoa que ainda era representante da Igreja Romana.

Até ai não vejo nada demais, tirando o fato que o ex-bispo quebrou seus votos e, creio, que aquele que se dispõe a jurar solenemente sobre algo deve honrar tal atitude. Mas esta questão do celibato obrigatório para os sacerdotes católicos não funcionou no passado, não funciona no presente e não funiconará no futuro.

O que me surpreendeu mesmo foi a postura da CNBB, que através do seu porta-voz, Dom Orani Tempesta, teve o seguinte posicionamento sobre o assunto:

"Cada pessoa responde à fidelidade ou à infidelidade daquilo que promete. Acho que não cabe à igreja julgar ninguém, mas a cada um de nós, vendo as coisas, dizer se estou sendo fiel àquilo com que me comprometi."

Pera ai...

Não cabe a Igreja julgar ninguém?!? =/

A mesma Igreja que excomungou a mãe que autorizou a interrupção da gravidez da filha de onze anos que foi estuprada, assim como toda a equipe médica que levou à cabo o procedimento, vem dizer que não cabe à ela julgar ninguém?

Dom Orani poderia ter lembrado ao seu colega, o arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho, aquele que chegou a tentar impedir a interrupação da gravidez da garota estuprada, mesmo que tal procedimento tenha sido autorizado pelo judiciário, deste posicionamento da Igreja Católica.

Realmente é uma pena que o bispo Orani Tempesta não era clérigo católico à época da inquisição espanhola, já que este seu posicionamento teria poupado milhares de vidas ceifadas por Torquemada e seus asceclas.

O corporativismo hipócrita da CNBB é tão descarado, que nem seria preciso dizer mais nada.

A tentativa do orgão máximo da igreja romana no Brasil, sendo também o mais influente do continente, em minimizar a responsabilidade do ex-bispo demonstra como Bento XVI, como bem assinalou o vaticanista italiano Marco Politi em recente entrevista ao jornal "Folha de São Paulo", comporta-se de forma errática e paradoxal.

Não é à toa que o catolicismo perde fiéis aos milhares para outras religiões, em especial as evangélicas, visto que insiste em posturas arcaicas, uma estrutura falida e tradições que estão, simplesmente, na contra-mão da moderna sociedade mundial.

De toda forma, esta é uma excelente lição não somente para os católicos, mas também para nós, umbandista, já que estamos em uma época onde a maioria dos adeptos de nossa religião anda apostando todas as "fichas" em lideranças que, com raríssimas exceções, seguem rumos obscuros, erráticos e, principalmente, contraditórios.

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Foto: Antônio Cruz -
Agência Brasil - Radiobrás
Sob licença Creative Commons Attribution 2.5 Brazil

quinta-feira, março 12, 2009

NOTAS RÁPIDAS

“FTU inaugura a Pós-modernidade na Umbanda – Aproximando o Saber Acadêmico do Religioso”. Com este tema, fomos "brindados" com outro pronunciamento de Francisco Rivas Neto (Arapiaga) via internet. Quem acessou o site da FTU ontem e não tinha nada melhor para fazer, viu um Riva Neto, como sempre, tropeçando nas palavras, se perdendo durante a fala, querendo falar sobre um assunto (Pós-Modernidade) que, definitivamente, não domina. A impressão que passou é que decorou alguns nomes e conceitos básicos sobre o tema para a gravação do programa. Isto sem falar no amadorismo da gravação e a preocupação dele em apontar a todo momento uma cadeira vazia ao seu lado esquerdo. Estes pronunciamentos de Rivas Neto nada mais são do que uma forma dele alimentar o seu ego e estar em "cadeia internacional" semanalmente, sem falar na oportunidade de atacar os "mal fadados" (conforme se expressa) cursos ministrados por Rubens Saraceni.

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E a polêmica sobre a excomunhão da equipe médica e da mãe da criança de nove anos que teve a gravidez de gêmeos, fruto de estrupro por parte do padrasto, interrompida com autorização da Justiça. Depois da campanha "Então me Excomungue", foi a vez dos católicos se manifestarem contra a postura retrógada do Bispo de Recife e Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho, em relação ao caso e lançarem um abaixo-assinado repudiando a excomunhão dos envolvidos. Com o título de "Nosso Manifesto - Católicos Conscientes", os fiéis da Igreja Romana falam sobre ética, dignidade e postura cristã. Aqueles que quiserem assinar podem acessar através deste link.

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Ainda sobre a tal excomunhão: se o Direito Canônico determina a excomunhão automática de quem pratica o aborto (Can. 1398 — Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit. Em língua pátria, o cânon 1398 do Código de Direito Canônico: Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.), com a justificativa de que prima pela preservação da vida humana, por que será que não há previsão de pena semelhante para homicídas em geral? Já que o princípio é punir aquele que tira a vida de um inocente, deveria a excomunhão automática se estender para qualquer um que cometa homicídio doloso e outros crimes bárbaros, dentre ele o estupro de menores. Apenas para ilustrar, o termos "latae sententiae" significa "sentença oculta" e ocorre independente de declaração de quem quer que seja. A pergunta (outra) que ficar é: se a excomunhão é automática, qual o objetivo do estardalhaço feito pelo "bom velhinho" Bispo Dom José Cardoso Sobrinho?


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O MPF-SP (Ministério Público Federal em São Paulo) ajuizou uma ação civil pública contra a Rede Record e a TV Gazeta pedindo indenização no valor de, respectivamente, R$ 13.600.000,00 e R$ 2.424.300,00, pela suposta discriminação das religiões de origem afrobrasileira na programação das emissoras. De acordo com a Procuradoria, programas religiosos exibidos nas redes de TV utilizam há anos expressões que discriminam religiões como umbanda e candomblé, tais como “encosto”, demônios, “espíritos imundos”, “feitiçaria”, além da famigerada “macumba”. Para a procuradora regional dos Direitos do Cidadão Adriana da Silva Fernandes, autora da ação, as emissoras não estão imunes de responsabilidade sobre programas feitos por produtoras independentes.

quarta-feira, março 11, 2009

CAMPANHA "ENTÃO ME EXCOMUNGUE"

O site EM DIA COM A CIDADANIA lançou hoje a campanha-movimento "Então, me excomungue", dirigida a Igreja Católica, tendo em vista a excomunhão da equipe médica que operou a criança de 9 anos, estuprada pelo padrasto e grávida de gêmeos.

O texto para adesão diz o seguinte:

"Se para merecer os sacramentos católicos tenho que concordar com a morte de uma criança de nove anos, grávida por estupro, porque a Igreja Católica acha que é crime espiritual o aborto para salvar sua vida, mesmo que ela morra com as crianças que espera; e, também, com a excomunhão arbitrária daqueles que o praticaram para salvá-la; se tenho que assistir os padres pedófilos serem absolvidos pelo silêncio do Vaticano, e nada, absolutamente nada acontecer com eles; se tenho que concordar que aborto seja um fato pior do que o estupro, mais "pecaminoso"... ENTÃO, ME EXCOMUNGUE!"

Para assinar o abaixo assinado mande uma mensagem com seu NOME e E-MAIL para entaomeexcomungue@gmail.com


No orkut foi lançada a comunidade EU NÃO APROVO A EXCOMUNHÃO , também contra a excomunhão da mãe e equipe médica.

sábado, março 07, 2009

O ESTUPRO E A EXCOMUNHÃO

É como eu sempre digo: posso viver centenas de anos e jamais deixarei de me espantar com as atitudes dos seres humanos e das instituições por eles criadas. O caso da menina de nove ano grávida de gêmeos após ter sido estuprada por seu padrasto e a posição retórica, anti-cristã, caduca e insensata do Bispo de Recife e Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho, é um dos mais recentes exemplos disto.

Poderiamos começar falando da questão legal da situação.

A legislação brasileira permite o aborto em algumas situações extraordinárias, dentre elas ser a gravidez fruto de violência sexual ou quando coloca em risco a vida da gestante. No caso da menina, houve a ocorrência das duas hipóteses: foi estuprada e seu corpo não resistiria a gravidez de gêmeos o que a levaria, com quase absoluta certeza, ao óbito durante o parto.

Como vivemos em um Estado laico, ou seja, separado da qualquer tipo de Igreja, com um ordenamento jurídico próprio, não baseado no Direito Canônico da Igreja Romana (Graças aos Céus), a legalidade da interrupção da gravidez, dos pontos de vistas ético, legal, moral e social, é indiscutível.

Não seria razoável exigir não somente desta criança, mas também da sua mãe e demais familiares, colocar em risco a própria vida depois de toda a violência que passou aumentando, assim, o sofrimento de seus entes queridos.

Por outro lado, a Igreja Católica, representada pelo Bispo de Recife e Olinda, dá uma demonstração de falta de humanidade, bom senso e, porque não dizer, espírito cristão ao excomungar a mãe da menina e a equipe médica que realizou o procedimento, repito, dentro de todas as normas éticas e legais que vigoram neste país.

Particularmente, não vejo a excomunhão (assim como a canonização) como nada mais do que um delírio megalômano de um homem e de uma institução que se dizem representantes de Deus na Terra.

Da mesma forma que um decreto papal não coloca ninguém, em termos fatídicos, como um santo, muito menos tirará quem quer que seja da presença e da comunhão com Deus. Portanto, dois (dos muitos) atos que a Igreja Católica leva a termo e, na prática, não tem o menor resultado pratico, exceto o desperdício de papel e tinta.

Mas se em termos práticos a excomunhão não atinge seu objetivo (tirar a pessoa da comunhão com Deus), em termos sociais, ainda mais na região nordeste do Brasil, a coisa é muito mais séria e complicada.

Como se não bastassem a humilhação e o sofrimento pelo qual passam a criança e seus familiares, em uma sociedade extremamente religiosa como a nordestina, terão agora de carregar o estigma de serem, as "excomungadas". Quem conhece a religiosidade no interior do nordeste sabe bem o peso disto.

Há de ser questionar também se a Igreja Católica e o Bispo de Recife e Olinda, no caso da família haver decidido levar a gravidez adiante mesmo com todos os riscos que apresentava, iriam dar todo o suporte financeiro para que as crianças e a jovem mãe (na improvável hipótese de sobreviver ao parto) tivessem uma vida digna.

De certo que a Cúria Metropolitana se responsabilizaria por alimentar, educar, prover moradia, saúde e todo o tipo de assistência àquela família. Quem sabe o Bispo cederia a própria residência episcopal para acolhê-los, não é mesmo?

É claro que nada disto aconteceria.

O "Poder Escarlate" depois de "vencer" a luta pela manutenção da gravidez da menina, simplesmente abandonaria mãe e filhos à própria sorte, não dando o mínimo de atenção ou apoio material à eles.

Muito mais do que uma questão religiosa, o posicionamento arcaico, retrógado, estúpido da Igreja Católica nada mais foi do que uma tentativa de demonstrar poder sobre a vida dos outros e impor sua visão sobre coisas que não lhes dizem respeito.

O mais interessante nesta história toda é que o estuprador não foi excomungado.

O sujeito pratica um crime bárbaro, hediondo como este e a Igreja não considera isto sério o suficiente para tomar a atitude extrema de "tirá-lo da comunhão com Deus".


Isto me lembra a infeliz frase do então Governador de São Paulo, à época, Paulo Maluf: "estupra, mas não mata".


Diante da falta de "punição" oficial da Igreja ao estuprador, entendo que o Bispo deva ser partidário deste pensamento, já que os que "mataram" foram excomungados pela Igreja mas o que estuprou não. Aliás, a tradicional falta de punição para padres e bispos pedófilos por parte do Vaticano, combinado com este fato, nos leva a crer que estão protegendo a classe e "legislando" em causa própria.

Afinal de contas se o Papa excomungasse todo religioso católico envolvido em pedofilia e estupro, iria haver um déficit imenso de auxiliares.

A igreja católica nos EUA que o diga.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

O ESPÍRITO DE DOM HELDER CÂMARA

Recentemente foi lançado no mercado um livro mediúnico trazendo as reflexões de um padre depois da morte, atribuído, justamente, ao espírito Dom Helder Câmara, bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife, desencarnado no dia 28 de agosto de 1999 em Recife, Pernambuco.

É do conhecimento geral, principalmente dos católicos brasileiros: Dom Elder Câmara foi um dos fundadores da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro, cuja luta, nesse processo político da nossa história, o notabilizou no mundo todo, como uma das figuras mais expressivas do século XX, na defesa dos fracos contra a tirania dos fortes e dos pobres contra a usura dos ricos.

Pregava uma igreja simples voltada para os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi indicado quatro vezes para o prêmio Nobel da Paz.

Por isso, o livro psicografado pelo médium Carlos Pereira, da Sociedade Espírita Ermance Dufaux, de Belo Horizonte, causou muita surpresa no meio espírita e grande polêmica entre os católicos.

O que causou mais espanto entre todos foi a participação de Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo, que durante nove anos foi secretário de Dom Helder Câmara, para a relação ecumênica com as igrejas cristãs e as outras religiões. Marcelo Barros secretariou Dom Helder Câmara no período de 1966 a 1975 e tem 30 livros publicados.

Ao prefaciar o livro Novas Utopias, do espírito Dom Helder, reconhecendo a autenticidade do comunicante, pela originalidade de suas idéias e, também, pela linguagem, é como se a Igreja Católica viesse a público reconhecer o erro no qual incorreu muitas vezes, ao negar a veracidade do fenômeno da comunicação entre vivos e mortos, e desse ao livro de Carlos Pereira, toda a fé necessária como o Imprimatur do Vaticano.

É importante destacar, ainda, que os direitos autorais do livro foram divididos em partes iguais, na doação feita pelo médium, à Sociedade Espírita Ermance Dufaux e ao Instituto Dom Helder Câmara, de Recife, o que, aliás, foi aceito pela instituição católica, sem nenhum constrangimento.

No prefácio do livro aparece também o aval do filósofo e teólogo Inácio Strieder e a opinião favorável da historiadora e pesquisadora Jordana Gonçalves Leão, ambos ligados a Igreja Católica.

Conforme eles mesmos disseram, essa obra talvez não seja uma produção direcionada aos espíritas, que já convivem com o fenômeno da comunicação, desde a codificação do Espiritismo; mas, para uma grandiosa parcela da população dentro da militância católica, que é chamada a conhecer a verdade espiritual, porque "os tempos são chegados"; estes ensinamentos pertencem à natureza e, conseqüentemente, a todos os filhos de Deus.

A verdade espiritual não é propriedade dos espíritas ou de outros que professam estes ensinamentos e, talvez, porque, tenha chegado o momento da Igreja Católica admitir, publicamente, a existência espiritual, a vida depois da morte e a comunicação entre os dois mundos.


Foi desta forma, seguida de uma "entrevista" com o suposto Espírito de Dom Helder Câmara, que a Editora Dufaux apresenta a obra Novas Utopia que teria sido escrito pelo próprio. Não irei transcrever aqui todo o texto, visto ser muito longo, mas comentarei algumas respostas do suposto Bispo desencarnado no decorrer do artigo.

Em primeiro lugar quero salientar que não vejo problema algum em espíritos de pessoas famosas e respeitadas pelas humanas criaturas se manifestarem por meio da mediunidade, seja lá de que tipo for. As distinições, títulos e autoridades humanas não servem ou representam nada no mundo espiritual. Não é porque alguém foi um grande "qualquer coisa" pelas "terras de cá" que será alguém ou manterá qualquer statu quo nas "terras de lá".

Em seguida, quero dizer que o texto, em algumas partes, leva o leitor ao erro.

É sabido que o único que define posição oficial da Igreja Católica em qualquer assunto é o Bispo de Roma, conhecido por nós como "Papa". Ele é o Chefe de Estado do Vaticano e o líder máximo da Igreja Católica, inclusive no que diz respeito à sua doutrina.

Por isto é temerário (para não dizer falacioso) afirmar que a o fato de um monge beneditino ter prefaciado o livro é semelhante a um reconhecimento público de um erro doutrinário da Igreja Católica não é, minimamente, razoável. Muito pior é dizer que tal ato seria como se a Igreja estivesse, de forma indireta, dando o seu imprimatur.¹

Obviamente, o autor, assim como a Editora, apesar de espíritas, estranhamente buscam uma espécie de reconhecimento da Igreja Católica para autenticar não somente o livro mas, pior, a identidade do espírito comunicante.

Nenhuma das duas coisas, é claro, aconteceu.

Um monge, que está no posto mais baixo da hierarquia católica, não tem o poder de autenticar nada, independente do seu relacionamento com o suposto espírito que se comunica e, muito menos, refletir tendências ou posicionamentos da Igreja Católica Romana.

Por outro lado, com certeza, a opinião, assim como o reconhecimento da ICAR² quanto ao assunto é deveras irrelevante, por isto, como já disse, causa estranheza esta insistência do autor e da Editora em buscar no seio da Igreja algum tipo de apoio à obra.

Menos ainda o aval dp teólogo Inácio Strieder e da historiadora Jordana Leão, são suficientes para comprovar a identidade do autor espiritual da obra ou a autenticidade dos ensinamentos ali exposados.

Dito isto, e afim de não tornar este artigo maior e tedioso, quero, para finalizar, comentar três repostas do suposto espirito de Dom Helder Câmara:

1) Dom Helder, mesmo na vida espiritual, o senhor se sente um padre?

Não poderia deixar de me sentir padre, porque minha alma, mesmo antes de voltar, já se sentia padre. Ao deixar a existência no corpo físico, continuo como padre porque penso e ajo como padre. Minha convicção à Igreja Católica permanece a mesma, ampliada, é claro, com os ensinamentos que aqui recebo, mas continuo firme junto aos meus irmãos de Clero a contribuir, naquilo que me seja possível, para o bem da humanidade.

Comentários: É no mínimo estranho um espírito que já livre do corpo físico e que viveu dentro de determinada crença e convicção por toda a sua existência terrestre, ao chegar no plano espiritual mantenha-se convicto em relação à uma instituição que prega contrariamente à tudo que ele está vivendo fora da carne.

2) O senhor já era reencarnacionista antes de morrer?

Nunca fui reencarnacionista, diga-se de passagem. Não tenho sobre este ponto um trabalho mais desenvolvido porque esse é um assunto delicado, tanto é que o pontuei bem pouco no livro. O que posso dizer é que Deus age conforme a sua sabedoria sobre as nossas vidas e que o nosso grande objetivo é buscarmos a felicidade mediante a prática do amor. Se for preciso voltar a ter novas experiências, isso será um processo natural.

Comentários: o espírito de Dom Helder, neste ponto, se mostra "em cima do muro". Não negou a reencarnação, mas também não a autenticou como verdadeira, apesar do que diz no final de sua respostas. A pegunta que faço é: seria razoável que um espírito, livre de qualquer limitação, conhecendo a realidade da encarnação, responderia, realmente, desta forma?

3) Qual seu pensamento sobre o papado na atualidade?

Muito controverso esse assunto. Estar na cadeira de Pedro, representando o pensamento maior de Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma responsabilidade enorme para qualquer ser humano. Então fica muito fácil, para nós que estamos de fora, atribuirmos para quem está ali sentado, algum tipo de consideração. Não é fácil. Quem está ali tem inúmeras responsabilidades, não apenas materiais, mas descobri que as espirituais ainda em maior grau. Eu posso ter uma visão ideológica de como poderia ser a organização da Igreja; defendi isso durante minha vida. Mas tenho que admitir, embora acredite nesta visão ideal da Santa Igreja, que as transformações pelas quais devemos passar merecem cuidado, porque não podemos dar sobressaltos na evolução. Queira Deus que o atual Papa Ratzinger (Bento XVI) possa ter a lucidez necessária para poder conduzir a Igreja ao destino que ela merece.

Comentários:
esta foi a coisa mais estranha que já li partindo de um espírito. Na verdade ele, em sua resposta, confirma o Papa como representante do próprio Cristo na Terra e a ICAR como Sua Verdadeira Igreja.

Acredito que pelo tempo que Dom Hélder esta desencarnado, ele já deveria ter uma visão mais profunda e coerente sobre as instituições humanas, a Igreja Romana incluso. Não é de se aceitar facilmente, que um espírito que está tendo autorização do Alto para se comunicar através da mediunidade, esteja ainda como uma visão tão estreita em relação a como, realmente, funciona a espiritualidade e, principalmente, as instituições humanas.

Enfim, mais uma obra, com mais um nome famoso, respeitado e querido por muitos. Como não li o livro (mas pretendo fazê-lo) não posso opinar sobre seu conteúdo, mas diante das respostas dadas na entrevista espero que o mesmo possa, no mínimo, se enquadrar naquela velha máxima:

"Não importa quem seja o mensageiro, e sim a mensagem que ele traz."

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¹ declaração oficial da Igreja Católica, que diz que um trabalho literário ou similar não vai contra as idéias da igreja e que é uma boa leitura para qualquer católico. Em latim, Imprimatur significa "deixem-no ser impresso". Antes do Imprimatur, que é dado por um Bispo, passa-se pelo censor da Diocese, que dá o Nihil Obstat (nada contra), e, se o autor do livro for membro de uma Ordem, o Superior dá, antes do censor, o Imprimi Potest (pode ser impresso). Sendo, pois, esta a seqüência: Imprimi Potest, Nihil Obstat e, então, o Imprimatur.

² Igreja Católica Romana

terça-feira, dezembro 02, 2008

O PAGADOR DE PROMESSAS: O BURRO, O PADRE E A INTOLERÂNCIA

Apesar de ser um cinéfilo de carteirinha, confesso que estava em "pecado" por nunca ter assistido ao filme "O Pagador de Promessas", escrito e dirigido por Anselmo Duarte, baseado na obra homônima de Dias Gomes. Foi encenado pela primeira vez em São Paulo, em 1960. Menos de dois anos depois, o filme baseado na peça já ganhava Palma de Ouro em Cannes.

Zé-do-Burro, um sertanejo, carrega nas costas uma imensa cruz por mais de sete léguas (aproximadamente 42 km), até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, para pagar uma promessa.

Tudo o que ele quer é depositar a cruz dentro da igreja e pagar assim sua promessa, mas as coisas não serão tão fáceis. Ele se depara com a intransigência do pároco local, com os interesses políticos-religiosos da Igreja Católica, assim com a interferência do próprio Estado repressor.

O filme é bonito, interessante, emocionante. Mostra, com maestria, o poder da Igreja Católica em mobilizar o aparato repressor do Estado para defender seus interesses, assim como o nível de desrespeito e intolerância contra outras confissões de fé.

Destaque não somente para o trecho que disponibilizamos, mas também para a cena em que o padre impede a entrada de várias adeptas do Candomblé à missa em honra à Santa Bárbara, apartando-as dos devotos católicos e fechando as portas da Igreja.

No que pese a estrutura maniqueísta do filme, onde temos um herói absolutamente sem máculas, puro, honrado, casto, etc, que é sobrepujado pelos poderes constitúidos e ridicularizado é uma sociedade corrupta, gananciosa, mentirosa, uma verdadeira obra-prima, que deve ser assistida não somente pelos amantes do cinema, mas por todos aqueles que lutam contra o preconceito religioso.

Em verdade, o que vemos no filme é um pálido reflexo do nível de desrespeito à fé alheia que vivemos hoje em dia, com Terreiros de Umbanda e Candomblé sendo invadidos e destruídos por fanáticos religiosos, em especial por evangélicos neo-pentecostais.

O trecho que selecionamos é o "miolo" de toda a história, demonstrando não somente a humildade e intenções do personagem "Zé do Burro", mas também a visão anacrônica do sacerdote católico que chama o Candomblé de "feitiçaria" e "coisa do diabo".




terça-feira, fevereiro 21, 2006

SINCRETISMO RELIGIOSO: FAZ SENTIDO?

O fenômeno do sincretismo religioso ainda é uma realidade no meio umbandista atual. Na verdade o comum é vermos os altares de nossos Terreiros tomados por imagens de Santos católicos e até mesmo deuses hindus e personalidade de outros sistemas filo-religiosos, como é o caso do Dr. Bezerra de Menezes.

Neste artigo, porém, vamos nos ater somente à questão do sincretismo afro-católico, que é o mais presente em nosso meio. Com a vinda dos negros escravos para o Brasil, com ele vieram suas tradições e crenças religiosas, sendo que proibidos pelos senhores-de-engenho de cultuarem seus deuses e sob a pressão dos padres católicos em convertê-los à religião católica, os negros adaptaram-se à situação.

Observando as características atribuídas aos Santos católicos ensinadas pelos catequistas, identificaram nelas traços de seus próprios Orixás, relacionando uns aos outros. Assim, então, o Orixá Ogum “transformou-se” em São Jorge, Oxossi em São Sebastião, Oxalá em Jesus Cristo e assim por diante.


Dentro das senzalas, armavam altares com imagem de santos católicos, mas atrás destes haviam os “otás”, elementos que representavam seus Orixás que, na realidade, eram os verdadeiros motivos de culto para os negros escravos. Com uma fachada externa que levava os Senhores-de-Engenho e seus feitores a acreditarem que os escravos haviam se convertido ao cristianismo, tinham eles a liberdade de honrar suas Tradições e crenças sem serem importunados ou castigados.

Vemos, portanto, que o sincretismo religioso surgiu da necessidade de adaptação dos negros para fugirem das proibições de seus senhores brancos. Mas, e hoje, temos necessidade disto? A resposta, infelizmente, não é tão simples...

Alguns estudiosos poderiam se apressar em responder que não necessitamos mais do sincretismo, visto que vivemos em um país livre e democrático que garante nossa liberdade de religião. Outros poderiam dizer que o sincretismo é um traço cultural que deve ser preservado.

Em verdade ao analisarmos profundamente o sincretismo religioso, chegamos a conclusão que, teologicamente, o mesmo não faz sentido. Porquê? Pelo simples fato que os Orixás, como forças espirituais, sempre existiram, ou sejam não passara a “existir” quando do surgimento da Igreja Católica e de seus Santos. Para deixar este ponto de vista mais claro, façamos uma pequena analogia:

A) Levando-se em conta que São Sebastião viveu por volta do ano 250 D.C, a linha ou vibração de Oxossi teria menos de 1.800 anos, ou seja, só teria passado a existir com a morte e conseqüente canonização do legionário romano.

B) São Jerônimo viveu de 347 DC a 420 DC, portanto a linha ou vibração de Xangô teria menos de 1.600 anos.

C) São Lázaro, contemporâneo de São João Batista, que viveu entre os anos 5 e 28 DC, o que faria a linha ou vibração de Yorimá (Pretos-Velhos, Obaluaye) tivesse menos de 1975 anos.

Baseados nisto, vemos que seria impossível que as sete linhas de Umbanda fossem sendo criadas aos poucos, dependendo da morte e posterior canonização dos Santos da Igreja romana.

Por outro lado, na visão prática, o sincretismo religioso ainda é necessário, apesar, de como já dissemos, não ter sentido teologicamente falando. Acontece que a Umbanda abarca vários graus de consciência, abraçando tanto o intelectual, quanto o analfabeto.

Diante de nossas Tradições de origem judaico-cristã, o Astral Superior permite o uso de imagens para que os mais simples, culturalmente falando, possam identificar as características dos Orixás nos Santos católicos, fazendo com que suas imagens sejam pontos de concentração e referência dos fiéis.

Acreditamos que com o passar do tempo e a evolução espiritual das humanas criaturas, estes artifícios utilizados pelo Astral Superior não serão mais necessários, visto que os véus que encobrem o entendimento pleno das coisas espirituais cairá completamente.