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sábado, fevereiro 25, 2006

UMBANDA: UMA RELIGIÃO DIVIDIDA


"Canticum graduum David ecce quambonum et quam iucundum
habitare fratres in unum
Scut unguentum in capite quod descendit in
barbam barbam Aaronquod descendit in ora vestimenti eius
Sicut ros Hermon qui
descendit inmontes Sion quoniam illic mandavitDominus benedictionem et
vitamusque in saeculum"

(Salmo 133:1-3*)


Já há alguns anos temos notado que o Movimento Umbandista vem passando por fases interessantes, muitas delas, lamentavelmente, extremamente destrutivas para o meio.

Há pouco mais de dois anos atrás, surgiu o termo "Escola", para designar as várias tendências doutrinárias e ritualísticas inerentes à Umbanda. Foi um "Deus nos acuda": criaram-se facções e, pelo menos nos meios virtuais, criou-se uma acirrada disputa entre as tais "Escolas" para determinar quem estava mais certo do que o outro.

O resultado?

A maioria dos que estão lendo estas linhas conhece: listas de discussões foram fechadas, processos judiciais movidos, ameaças, grupos estraçalhados... um verdadeiro caos tomou conta do já muito confuso e desunido Movimento Umbandista. A velha máxima romana de "dividir para conquistar" nunca foi (e talvez nunca mais será) tão atual como agora...

Agora o meio umbandista está envolto em outra disputa: a supremacia e "legalidade" das Federações. As armas usadas neste "combate", porém, não são novas: acusações sem provas, calúnias, difamações, "dossiês" e todo aquele arsenal típico dos que se aprazem mais em discutir pessoas ao invés de idéias.

Estamos muito próximos em comemorar o centenário do Advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas e a Religião por ele revelada dá sinais claros de cansaço sendo que, talvez, não resista por mais 100 anos. A busca pelo poder temporal, pela imposição de "verdades" e as verdadeiras guerras fatricídas que há muito vêem sendo travadas em nosso meio demonstram que o Reino da Umbanda está por demais dividido e, como disse o Supremo Mestre Jesus:

"Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá" (Mateus 12:25)

A busca pela unidade doutrinária é uma utopia. Ninguém conseguirá fazer com que todos os Umbandistas "rezem pela mesma cartilha". Nenhuma Tradição iniciática ou religiosa conseguiu, até hoje, criar um padrão para seus rituais e práticas litúrgicas. Dentro de Ordens tradicionais como a Maçonaria, o Rosacrucianismo, o Martinismo, dentre outras, vemos uma base ideológica acompanhada de uma multiplicidade litúrgica. Com uma religião tão nova como a Umbanda não seria diferente.

A pluralidade de ritos nada mais é do que a manifestação externa da pluralidade de consciências. Seria mais útil deixarmos a pretensa e utópica "Codificação da Lei de Umbanda" de lado, esquecermos nossas diferenças e nos atermos àquilo que nos uneA situação é por demais séria e nossa Religião, efetivamente, corre o perigo de ser apenas lembrança em um futuro não muito distante. Enquanto os interesses pessoais, a busca de poder, títulos e influência temporal for o objetivo perseguido por aqueles que se posicionam como "líderes" do Movimento Umbandista, continuaremos como o viajante incauto: perderemos o trem... o trem da história. Pior... seremos apenas história...

"Spes Mea in Deo Est"

* Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desceu sobre a barba, a barba de Arão, que desceu sobre a gola das suas vestes; como o orvalho de Hermom, que desce sobre os montes de Sião; porque ali o Senhor ordenou a bênção, a vida para sempre.

(artigo publicado pela primeira vez no "Boletim Saravá Umbanda" , Ano 06 - Número 16 - 01 de Janeiro de 2004)

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

CARTA DE BELO VALE : "E PLURIBUS UNUM"

"E Pluribus, Unum”

Inspirados pelas forças do alto, reuniram-se na Fazenda Belo Vale, no interior da cidade mineira do mesmo nome, os representantes das várias correntes da Umbanda. Com aquele Encontro, foram quebradas todas as correntes nacionais contrárias ao movimento e os participantes puderam testemunhar uma verdade que estava sendo esquecida: A de que “ cada um manifesta sua ligação com o Astral Superior à sua maneira” e de que “somos todos apenas instrumentos grosseiros da manifestação de uma Luz maior” a qual, sendo infinita, ilumina, aquece, purifica, traz consolo, saúde e paz interior aos que a buscam.

É sabido que um lustre da mais rara beleza irradia a mesma luz que um simples conjunto de velas; também nós, dotados ou não de formação intelectual, possuidores ou não de bens materiais, estaremos irradiando a mesma energia ou às vezes menos, do que a de uma pessoa humilde que se predispõe à manifestação mediúnica mesmo sendo inculta ou analfabeta.
Reunindo pessoas das várias linhas da Umbanda com o objetivo primordial de compartilhar experiências, aquele Encontro inspirou os participantes a redigir e divulgar a “Carta de Belo Vale”, documento que passa a ser o ponto de convergência, o marco da união das várias correntes da Umbanda no Brasil.

Os princípios apresentados a seguir, passam então a se constituir num roteiro para a Grande União que espelhará o enunciado “E pluribus, unum” (a partir de muitos, nos tornamos um) ou melhor ainda, pela união de muitas correntes da Umbanda, passamos a formar um corpo místico único, mais forte, mais unido, mais dinâmico, mais confiante e mais respeitado, o qual passa a ocupar o seu espaço no seio da sociedade brasileira.

Enunciados

1 – É facultada e mesmo estimulada a partir de agora, a praxe de visitas aos centros de outras linhas da Umbanda.

2 – Nas visitas, os médiuns deverão se predispor à incorporação com atuação efetiva junto ao público presente.

4 – Como esperado, as próprias entidades cuidam para que não haja ambigüidade de nomes de identificação adotados durante as incorporações conjuntas naquelas visitas.
3 – A liderança e a organização dos trabalhos fica sempre a cargo do responsável pelo centro anfitrião.

5 – Independentemente dos rituais de cada linha, vigoram sempre os princípios básicos da fraternidade, da solidariedade, do respeito mútuo, da empatia, da harmonia e do altruísmo entre os irmãos de fé.

6 – É dever de todos os que exercem atividades ritualísticas, observar os princípios de respeito à mãe natureza, buscar o equilíbrio ecológico e promovendo a limpeza dos locais onde tiverem sido feitos despachos.

7 – É dever de todos os que seguem os princípios da Umbanda, evitar danos à mãe natureza, abstendo-se de acender fogueiras ou deixar velas acesas junto às matas e campos, deixar objetos poluentes dentro de águas de nascentes, rios, córregos lagoas ou cachoeiras.

8 – É importante lembrar que em qualquer contato com as entidades através de despachos, o que vale para a obtenção dos resultados pretendidos é o que vai dentro da alma do crente e, principalmente, dentro da intenção do médium que executa os rituais, ficando em
segundo plano, a parte exterior envolvendo objetos, alimentos, bebidas, e partes de vestuário que devem ser recolhidos pelo médium ou por seus assistentes no final do ciclo.

9 – O princípio básico de que a união faz a força e a utilização de esforços mútuos em busca de um objetivo comum “ E pluribus, unum” deve nortear cada pensamento, cada palavra e cada ação de todos os que professam a Umbanda.

10 – São estimulados, tanto a prática de rituais conjuntos, seja nos centros, seja na execução de trabalhos encomendados pelos fiéis, como durante a realização de Encontros periódicos em forma de seminários ou congressos, de abrangência nacional ou regional.

11 – Seguindo os preceitos da Umbanda, condena-se a prática de rituais que visem prejuízos materiais, morais, danosos ao patrimônio ou à saúde de outrem, ainda que sejam com o objetivo de retorno de um trabalho anteriormente encomendado por representantes de outras crenças religiosas.

12 - É dever de todos buscar a utilização de meios de comunicação para divulgar a Umbanda, seus princípios, seus objetivos e sua beleza, buscando obter maior respeito de toda a comunidade, estimular a vinda de mais adeptos, principalmente daqueles detentores do poder temporal, das lideranças comunitárias, dos meios de comunicação, da segurança pública, da educação e da saúde no âmbito da União, dos Estados e dos Municípios.

Cidade de Belo Vale, Estado de Minas Gerais, aos dezessete dias do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e um.

Signatários:
Participantes do Iº Encontro Nacional de Umbanda