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sábado, março 18, 2006

DE UM MESTRE ESPIRITUAL AO SEU PUPILO

Com o decorrer do tempo, compreenderás, meu filho, que a mais difícil de todas as profissões é a de ser pessoa especial e a mais fácil a de ser como uma pessoa comum.

Como pessoa não vives só no mundo: és parte integrante de um todo que se chama humanidade e teu sagrado dever é contribuir da melhor maneira possível para o esforço comum a fim de deixares este mundo um pouco melhor do que estava, quando a ele viestes, agindo assim serás uma pessoa especial.

Não te confundas com o rebanho, seja uma pessoa especial no meio das pessoas comuns.

Pensa que tens um caminho a percorrer, uma missão que cumprir, um caráter que realizar antes de te graduares pessoa especial na universidade da vida.

Quando encontrares em teu caminho, uma pessoa desinteressada, agarra-te a ela como a sombra ao corpo, imita-a. O desinteresse é a mais difícil lição que terás que aprender para chegares a ser uma pessoa especial. Faça sempre algo sem esperar recompensa material.

À medida que gira infatigavelmente a roda da vida, verás que surge no labirinto humano, esta incontrolável verdade: Decência ! Decência no pensar, decência no sentir, decência no agir. Uma pessoa decente é honesta, que vale dizer, limpo de mãos e de espírito; é justa o que vale dizer, rende culto à equidade.

Em tua ascensão até o cume da pirâmide da vida uma das qualidades mais difíceis de assimilar é a decência. Contudo, não poderás considerar-te graduada na universidade da vida se não fores decente.

Se fores uma pessoa especial e não uma pessoa comum, meu filho serás coerente com os princípios que norteiam a vida das pessoas especiais: a decência, a compreensão dos valores das pessoas de bem, a solidariedade, entre outros. Que as tuas palavras reflitam sempre as tuas ações.

Se desejares seguir ascendendo na áspera e íngreme estrada da vida das pessoas especiais, sofra tuas dores, tuas esperanças, teus erros, com inteireza e dignidade.

Não peças piedade por teus erros. Tira forças de tuas fraquezas e não te considere vencido enquanto correrem gotas de sangue por tuas veias.

Tens um cérebro: pensa com ele. Tens um coração: ama com ele. Tens um par de braços saudáveis: use-os para o bem. Seja solidário com os teus amigos e não haja com desonestidade.

Por que esperar de outras pessoas a ajuda que tu mesmo podes dar-te? Sê teu próprio juiz, acusador e réu. Ninguém melhor do que tu mesmo para penetrar no sacrário do teu coração.

Tu sabes das tuas fraquezas: Vê o lugar da tua possível queda, morde ali teus lábios até sangrá-los e verás que tua possível derrota poderá sempre surgir uma vitória, poderá surgir a pessoa especial, aspiração divina para a humanidade.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

UMA PALAVRA AO APRENDIZ

No antigo Egito, séculos antes de Cristo, diziam os sacerdotes ao candidato que tivesse passado pelas duras provas das viagens e se tornado Aprendiz:

“TU ÉS A LUZ. DEIXA A LUZ BRILHAR!”.

Por meio desse ensinamento, transmitido pelo Instrutor do Mundo, Hermes Trimegisto, em épocas tão remotas que se perdem na névoa do tempo e da memória. Entendia-se que o Homem subtraído ao mundo das trevas espirituais e purificado pela água e pelo fogo, encontrava-se num plano onde deveria expressar a Luz do Ente Supremo da qual ele, Aprendiz, era um veículo assim como Hermes o fora.

E qual deve ser o trabalho do Aprendiz, senão o de aprender com os Mestres a dar seus passos regulares na senda que conduz à Luz do Supremo Ordenador dos Mundos, ao plano espiritual onde está construído o mais perfeito de todos os Templos?

Assim, à medida em que o Aprendiz vai ampliando seus conhecimentos, fortalecendo-se com a convivência fraterna e os trabalhos no Templo, vão se revelando a ele o Concreto oculto pelo Subjetivo; a Verdade oculta pelo Simbolismo; e, à semelhança de Saulo de Tarso na estrada de Damasco, caem-lhe dos olhos as escamas que o impedem de contemplar a Luz da Verdade e do Conhecimento, por onde se pode chegar à chave da verdadeira vida, anseio de todo Umbandista fiel porém acessível apenas aos que conseguem alijar de si todo pensamento que não esteja voltado unicamente para a justa e perfeita união com a Vontade de Deus e, por essa mesma Vontade, com toda a Fraternidade Universal.

Tal como a obra reflete seu construtor, assim deve o Aprendiz refletir as lições de seus Mestres, as quais tem que buscar com o ardor de um peregrino.

Buda – o Iluminado – há dezenas de séculos, disse a um discípulo que lhe pedia a síntese de toda sua sabedoria em apenas um verso:

“CESSA DE PRATICAR O MAL,APRENDE A PRATICAR O BEM, PURIFICA TEU CORAÇÃO. TAL É A RELIGIÃO DOS ILUMINADOS.”

Esta, também, deve ser a procura do Aprendiz, mesmo sabendo que a verdadeira compreensão entre as criaturas humanas só será plenamente atingida quando se elevarem em definitivo aos planos mais puros do espírito, além da carne e da matéria imperfeitas.

O reflexo de Deus deverá estar sempre em todo Aprendiz, imagem e semelhança Dele e de seu Verbo Materializado. Essa imagem é uma expressão ou continuação de Deus pois Ele é a Luz que transporta a imagem e enquanto o Aprendiz for capaz de receber e refletir essa Luz, será sempre parte consubstancial dela e se identificará permanentemente com o Criador. O grande pensador Emerson em seu ensaio sobre a Super-Alma, diz:


“NÃO HÁ NA ALMA UM LIMITE OU VALE ONDE DEUS – A CAUSA – CESSE E O HOMEM – O EFEITO – COMECE.”

Assim, é fundamental, inclusive para o maior fortalecimento da Fraternidade Umbandista, que o Aprendiz empreenda todos os esforços no sentido de ser cada vez mais capaz de receber e refletir a luz dos planos superiores onde o Espírito Criador continuamente deixa correr seu eterno fluxo ordenador. Desse planos veio o Homem e de volta para ele o impulsiona seu espírito, numa gradação sucessiva que o devolva ao ponto de origem mais enriquecido com as experiências acumuladas durante o processo mais puro e não contaminado com as misérias deste mundo imperfeito.

Ao longo de sua jornada umbandista terrena, deve o Aprendiz cristalizar em si e em suas obras a certeza de que sua vida e todas as vidas são fundamentalmente uma só e que ninguém vive para si apenas. Todo Homem é um ser em relação, feito para os demais e dependente dos demais e jamais será Humano a não ser em conjunto.

É preciso que, por etapas sucessivas e graduais o verdadeiro Aprendiz, aquele em que o espírito umbandista atingiu o nível do sacramental, se aperceba do mundo material; depois, do mundo da vida ou consciência para poder, finalmente, elevar-se até o conhecimento do seu verdadeiro ser. Ele deve ser como as pedras de um Templo, preparadas de antemão para a edificação.Como disse Santo Inácio, aquele que em criança sentou-se ao colo de nosso Mestre Maior, Jesus Cristo, numa notável passagem:

“SOIS ERGUIDOS ÀS ALTURAS PELO INSTRUMENTO DE TRABALHO DO CRISTO – A CRUZ – USANDO COMO CORDA O ESPÍRITO SANTO E COMO GUINDASTE A VOSSA FÉ, SENDO O AMOR O CAMINHO QUE CONDUZ AO ETERNO.”

Pode o Aprendiz sentir nessa lição a responsabilidade que lhe recai sobre os ombros. É, ainda, pedra rústica mas traz dentro de si o esboço da pedra polida e angular sobre a qual se edificará o Homem Livre. Precisa, pois, refletir intensa e profundamente porque está neste mundo. Deus assim o quer, pois se assim não fosse aqui não estaria. Ele veio para o trabalho de construção do Templo de Deus, da morada da Fraternidade Eterna.

Necessário é, ainda, que o Aprendiz reflita sobre o momento em que ouviu, durante sua iniciação:

“NO PRINCÍPIO DO MUNDO, DISSE DEUS, FAÇA-SE A LUZ ... E A LUZ FOI FEITA.”

E lhe foi dado ver a luz. Mas,que luz foi essa? Aquela que rodeia os Irmãos no Templo e lhes ilumina os trabalhos, ou aquela que, emanada da suprema e eterna fonte o deverá orientar para a Verdade e a Retidão, para a consciência de que tem maior sentido e utilização no Plano Divino do que jamais poderia imaginar? Cristo não disse, no Evangelho:

“CONHECEREIS A VERDADE E ELA VOS LIBERTARÁ.”?

Em um antigo ritual da Maçonaria, trolhava-se um Irmão com a seguinte fórmula ritualística:

“DE ONDE VINDES COMO MAÇOM? DO OCIDENTE! E PARA ONDE VOS DIRIGIS? PARA O ORIENTE! E O QUE VOS INDUZIU A DEIXAR O OCIDENTE E DIRIGIR-VOS PARA O ORIENTE? BUSCAR UM MESTRE E DELE OBTER INSTRUÇÃO!”

Tal e qual os Maçons são aos Mestres, portanto, que o Aprendiz deve buscar, para se colocar sob as luzes de sua experiência e para que seja ensinado a dar corretamente seus passos na Umbanda, e é fraternalmente que deve buscar essa instrução mas sem esquecer-se que também deve, por si, aprofundar-se no estudo do Pensamento Divino, eis que as incontáveis galáxias e formas de vida do universo nada mais são do que a materialização da Mente Cósmica. Na Umbanda aprende-se que os Rituais e Simbolismos trazem em seu bojo um sentido, um conceito.

Cada Umbandista é um peregrino em busca do Portão guardado pelo Querubim da Espada Flamígera, como descrito no Livro da Lei. Mas, ninguém o atingirá jamais se não se elevar acima do externo e do material, se não se desapegar do continente para mergulhar no conteúdo, se não tiver raiado dentro de si a exata compreensão da razão pela qual está neste mundo.
Diz a velha sabedoria popular que por respeito ao santo beija-se a imagem; por respeito ao que significam, reverenciamos nossos rituais e simbolismos mas é forçoso que desde os primeiros passos o Aprendiz os encare como um meio e não um fim em si mesmos, para que não se torne mero repetidor de toques, sinais e palavras e sim um digno aspirante à Luz de onde veio e com a qual se refundirá um dia, num dos muitos caminhos do Tempo.

Finalmente, como verdadeiro Umbandista, deve o Aprendiz manter seus olhos espirituais para além das colunas do Templo, voltados para os níveis superiores onde domina a Verdade e nos quais todo Obreiro Livre anseia repousar ao terminar seu último trabalho.